Se eu tivesse uma moeda para cada vez que eu me vi forçado a imprimir um jogo criado pelo Alex Randolph de tanta vontade de jogar, eu teria duas moedas, o que não é muito, mas é curioso que tenha acontecido duas vezes.
Ou talvez não seja tão curioso assim, o cara realmente foi um designer de jogos muito bom.
A primeira vez que isso aconteceu foi com Ricochet Robots, e essa é uma história que eu ainda vou contar aqui. Mas hoje vou falar de Big Shot, um jogo de 2001 que captura muito bem uma das coisas que eu mais gosto num jogo: a sensação de estar jogando um jogo.
O head designer de Magic: the Gathering, Mark Rosewater, categoriza a criação de coleções do jogo (e isso pode ser estendido para jogos de tabuleiro) em dois tipos de abordagem: bottom-up (de baixo pra cima) e top-down (de cima pra baixo). O design de baixo pra cima ocorre quando se pensam as mecânicas e as interações que a coleção ou o jogo terão e depois se pensa a temática que vai encaixar melhor com aquelas mecânicas. Já numa abordagem de cima pra baixo, começa-se com uma temática ("vou fazer um jogo sobre confeitaria") e aí se pensam as mecânicas que representam essa temática.
Na minha percepção, jogos pensados de cima para baixo correm o risco frequente de colocarem mecânicas demais numa tentativa de representar mais fielmente (o que Rosewater chama de gerar ressonância) aquela experiência que está sendo transposta para um jogo, enquanto jogos pensados de baixo para cima enfrentam primeiro o desafio de serem bons jogos e depois o de aplicar a eles uma temática interessante.
Big Shot (lançado no Brasil como Leilão de Imóveis) é um jogo que acerta tanto no quesito ser um bom jogo que eu pelo menos nem penso se a temática se encaixa tão bem assim. Eu não tenho a sensação de estar leiloando imóveis, propriedades ou lotes, eu estou jogando um jogo em que eu preciso dar lances para forçar meus adversários a gastarem mais para alocar peças do que eu, e alocar as minhas peças de forma eficiente.
Em Big Shot, o mapa consiste em 13 regiões (divididas em 4 conjuntos) que serão disputadas pelos jogadores. 11 delas valem uma certa quantidade de pontos e 2 funcionam como multiplicadores: se você possuir a região multiplicadora no fim do jogo, cada outra região que você possuir no mesmo conjunto valerá o dobro.
As regiões são disputadas através de marcadores da cor dos 4 jogadores, 18 cubos de cada cor, que são embaralhados e distribuídos em 18 espaços com 4 cubos cada. Com 3 jogadores, a cor restante é distribuída normalmente, como se fosse um jogador neutro. A cada rodada, um desses lotes de 4 cubos é leiloado, e vencer o leilão significa que você decidirá como ele será distribuído no tabuleiro. Cada região terá um vencedor quando tiver 7 cubos nela, portanto o seu objetivo é o de distribuir os seus cubos da forma mais eficiente possível enquanto distribui os cubos dos seus adversários de forma a desperdiçá-los (por exemplo, colocando numa região que já tem 4 cubos de um jogador, já que os novos cubos adicionados ali não influenciarão o resultado). Ter 7 cubos seus numa região é pior do que ter 4, porque significa que 3 cubos foram desperdiçados.
A grande sacada genial dessa parte do jogo é que os empates se cancelam, ou seja, se uma região tem 3 cubos azuis, 3 cubos vermelhos e 1 cubo verde, os cubos azuis e vermelhos são ignorados e a região é adquirida pelo jogador verde. Isso permite jogadas interessantíssimas onde colocar apenas um cubo seu numa região te faz vencer aquela região.
Outro ponto interessante são os empréstimos. Cada jogador começa com $10 e esse valor certamente não é suficiente para vencer os leilões que você precisará vencer. Ao longo do jogo, você pode pegar empréstimos, que descontarão $10 da sua pontuação no final do jogo. Porém, os juros são pagos adiantados, portanto o primeiro empréstimo te credita apenas $9, o segundo $8 e assim por diante. A utilidade de cada empréstimo vai diminuindo e tentar forçar seus adversários a pegar mais empréstimos é uma estratégia importante.
Para concluir o meu hiperfoco nesse jogo, eu recriei ele numa planilha do Google Sheets, com aleatorização e cálculo de quem vence cada local já implementados.
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